Uma vez que a igreja local comunga com a igreja universal e histórica no que tange aos fundamentos primários, essenciais e atemporais da fé cristã, ela tem liberdade para distinguir naquilo que é secundário. Quando nos referimos às “distinções teológicas” temos em mente conceitos relacionados à ortodoxia e ortopraxia da igreja local que podem ser distintos da forma de pensar e se mover de outras igrejas locais, mas que não são determinantes para promover ou interromper a comunhão entre o povo de Deus. Todavia, apesar de não terem um peso fundamental para a constituição e preservação da unidade do Corpo de Cristo, as distinções teológicas possuem importância essencial para a formação da identidade e vocação específica de uma comunidade de fé, bem como o processo de contextualização e engajamento cultural no tempo e sociedade em que se encontra.
O Propósito Eterno
Enxergamos a obra de Deus em conformidade com seu Eterno Propósito que guia nossa cosmovisão e direciona nossos valores. Tudo o que o Deus Pai está fazendo na História, seja em seus atos criacionais ou redentores, está relacionado a formar uma família para Si, preparar uma noiva para Seu Filho Jesus Cristo, e edificar uma habitação para o Seu Espírito. A fim de que o povo de Deus viva para louvor da Sua glória e Cristo Jesus seja glorificado neles. (Ef 1. Rm. 8:28-29)
Somos centrados no Evangelho
Acreditamos na centralidade e suficiência do Evangelho para toda a vida. A partir do Evangelho lemos a Bíblia, pensamos a vida e desenvolvemos nossa vocação perante o mundo. A obra salvífica de Deus é o fundamento da nossa ortodoxia, ortopraxia e missão.
Nós subscrevemos aos 5 solas da reforma protestante
Embora não estejamos conectados diretamente com as denominações históricas reformadas, somos fruto da tradição teológica protestante, e subscrevemos aos 5 solas, que em nossa opinião resumem com precisão os princípios da reforma com o interesse de preservar a pureza da fé cristã da influência humana.
Acerca da nossa soteriologia
Quanto à mecânica da salvação, somos profundamente influenciados por teólogos bíblicos que sustentam que as escrituras não apresentam um claro sistema soteriológico, se aproximando do que historicamente ficou conhecido como arminianismo clássico, com algumas nuances.
Contudo, não cremos que as discussões a respeito da mecânica exata da salvação sejam assunto central, antes acreditamos que é justamente pela dificuldade de definir a questão em termos exatos que a história da igreja nos apresenta tantas explicações diferentes para o assunto. Em nosso meio, esse assunto não é tratado como central, antes nos preocupamos em focar na grande história das Escrituras, e na boa notícia a respeito de Cristo Jesus que nos leva de volta ao propósito original do Pai, e somos felizes em ter congregando conosco irmãos com diferentes preferências teológicas quanto a esse assunto.
Cremos em uma teologia convergente, mas não ecumênica
Não podemos deixar de reconhecer que, ao longo da história da Igreja, diversas tradições e vertentes teológicas trouxeram contribuições importantes. No entanto, nenhuma dessas tradições e vertentes é perfeita e completa e, por isso, não entendemos ser necessário abraçar todas em sua totalidade ou mesmo unir-se de forma ecumênica “em nome do amor mútuo” com grupos de “cristãos” que abraçaram “outro evangelho” abrindo mão da Verdade. Acreditamos na unidade e catolicidade da Igreja, mas não na união ecumênica, que abre mão de princípios bíblicos, para mostrar aparência de unidade na diversidade sem compromisso com a Verdade. Portanto, quando afirmamos crer em uma teologia convergente, isso significa que assumimos a responsabilidade de considerar tanto as contribuições positivas quanto romper com as contribuições negativas de cada tradição e vertente teológica ao longo da história da Igreja.
Somos missionários
Porque acreditamos na igreja e no culto de forma espalhada, onde a igreja conduz atividades normais do dia-a-dia sob o propósito unificador de compartilhar o Evangelho às nações, entendemos que missão não é algo destinado a um grupo específico de pessoas, mas que missão é a razão pela qual ainda permanecemos nesse mundo após termos sido alcançados pelo Evangelho.
Somos complementaristas moderados
No sentido de que acreditamos que homens e mulheres têm direitos iguais, mas papéis distintos e complementares no lar e na igreja. Ambos foram criados à imagem de Deus e são igualmente dignos diante dele através de Cristo. No que tange ao ministério, cremos que as mulheres também podem e devem exercer seus dons para a glória de Deus, pelos interesses de Cristo e para o bem do mundo. Contudo, na igreja, não exercem posição de governo, e embora possam comunicar as boas novas (sujeitas ao governo da igreja local) e participar da diaconia servindo ao lado de seu esposo.
Somos continuístas moderados
No sentido de que acreditamos em uma teologia de continuidade da ação do Espírito Santo e na dispensação bíblica dos dons espirituais descritos no Novo Testamento, distribuídos ao Corpo de acordo com a vontade de Deus, e que devem ser usados para a edificação do Corpo (1Co 14). Embora oremos pelo enchimento do Espírito Santo (Ef 5:18) e busquemos sinceramente os dons mais elevados, sabemos que Seu ministério principal é por meio da santidade em nossas vidas diárias à medida que nos apegamos ao Evangelho por meio da fé. Quando falamos sobre continuísmo moderado, buscamos expressar que embora entendamos a continuidade dos dons, não apoiamos a ideia de que o Espírito Santo é obrigado a se manifestar por meio dos dons todas as vezes em que nos reunimos para cultuar Jesus. Da mesma forma que o Espírito Santo é livre para dar dons a quem quer, Ele tem a liberdade para se mover por meio de tais dons quando melhor lhe aprouver.
Acreditamos no batismo daqueles que creem
Porque este é um ato de obediência que simboliza a associação do crente com o Salvador crucificado, sepultado e ressuscitado, ensinamos e praticamos o batismo por imersão. O batismo por imersão sugere que acreditamos no batismo de pessoas conscientes da decisão que estão tomando. Se entendemos o batismo como uma confissão consciente e pública de que, mediante o Espírito, cremos na obra de Deus por meio de Cristo, entendemos que as pessoas que manifestam essa convicção devem ser conscientes do que estão fazendo.
Acreditamos na participação regular da Ceia do Senhor
A ceia é um sacramento fundamental para a vida e adoração cristã. Ela é um meio da graça, ensino e celebração que em nossa compreensão deve ser administrado quando a Igreja local está reunida em cultos públicos, mas que também deve ser praticado “de casa em casa”.
Acerca de nossa perspectiva escatológica
Cremos na vinda de Jesus para completar a obra de salvação dos crentes (ressurreição dos mortos e transformação dos corpos daqueles que estiverem vivos naquele dia) e aplicar a redenção em cada aspecto da Criação (redenção do cosmos), como um elemento central na esperança cristã. Tudo o que fazemos tem como esperança o glorioso retorno de Jesus e o estabelecimento pleno do Reino de Deus na terra. Sabemos que há interpretações distintas acerca do que acontece antes e depois da vinda de Jesus (grande tribulação e milênio) e, embora reconheçamos a importância de ter uma posição biblicamente respaldada acerca desse tema, elas não devem ser considerados centrais, muito menos fatores primordiais para sustentar a unidade do povo de Deus. Nossa posição teológica é o pré-milenismo histórico.
Cremos numa contextualização cultural equilibrada
A grande comissão implica no envolvimento da Igreja na sociedade. Não cremos que a alienação seja necessária para a manutenção da pureza da Igreja, mas ao mesmo tempo, não cremos que um engajamento cultural cego e ingênuo seja necessário para a eficácia da missão da Igreja. De sorte que, no que tange à nossa contextualização com a cultura e com a sociedade onde estamos inseridos, precisamos reafirmar os traços de graça comum e atributos divinos manifestos entre elas, bem como denunciar os elementos que foram corrompidos e que se opõem a Deus e Sua Palavra. É por meio do Evangelho que essa contextualização equilibrada acontece, por meio de uma presença fiel dos discípulos de Cristo em qualquer lugar, transformando todo espaço em um espaço sagrado.
Nossa orientação política é centrada no senhorio de Cristo
Com base na declaração doxológica “Jesus é o Senhor”, que expressa perfeitamente a esperança da Igreja, mas também, equivale a dizer que César não o é. Desta forma, somos apartidários, contudo, não somos apolíticos, anti-políticos ou politizados, exercemos nossa cidadania com prudência e equilíbrio, sendo sempre norteados pelo Evangelho e Sagradas Escrituras.
Entendemos a liturgia de culto como objetivo pedagógico e não sensorial
O culto dominical é a representação da adoração ajuntada do povo de Deus. A liturgia conta uma história centrada em Deus, do início ao fim: a história da redenção. Proclamamos o Evangelho pela maneira como adoramos. Cada parte enfoca algum aspecto da história de Deus, formando uma completa interpretação da realidade atestada nas Escrituras e pelas Escrituras, faladas e encenadas pela igreja. Não compactuamos do entendimento “expressionista” de culto público onde cada um adora a Deus de forma individualista, ainda que haja expressões e sentimentos neste encontro. O culto não tem por objetivo a busca de experiências e sensações, onde a espiritualidade é medida pela espontaneidade e pelo grau de emoção e expressão que ele proporciona para seus participantes. Tudo o que falamos, cantamos, declaramos e ouvimos coletivamente durante o culto público serve para nos lembrar e ensinar. A liturgia é, portanto, o drama divino sendo ensaiado e encenado a cada dia do Senhor até o grande Dia do Senhor. O culto e a adoração cristã têm um objeto e autor: Deus; dois contextos: espalhado e reunido; e três audiências: o Deus que salva pelo Evangelho, a Igreja formada pelo Evangelho e o mundo que precisa do Evangelho.
Dos ministérios e da ordenação ministerial
Como mencionado anteriormente, cremos no sacerdócio de todos os santos, portanto, toda “ovelha” torna-se também um apascentador, chamado a demonstrar seu amor por Cristo também desta forma (Jo 21:17). Ao tratar-se de um irmão vocacionado, com desejo para dedicar-se prioritariamente ao serviço ministerial e reconhecido pela Escritura, pelo presbitério, diaconia e congregação como apto para tal, realizamos a ordenação com imposição de mãos, após um tempo de experimentação. Não vemos base bíblica para ordenar alguém à um ministério específico dentre os descritos em Efésios 4:11, no entanto, acreditamos na ordenação para a responsabilidade de governo e liderança (presbíteros e diáconos) que também tem função de pastores e mestres no meio do povo de Deus. Também acreditamos que após o período do Novo Testamento não há mais apóstolos e profetas como os descritos na Bíblia, já que estes teriam sido testemunhas oculares do próprio Cristo e lançaram os fundamentos dos quais hoje não podemos mais tirar ou colocar nada do que já foi posto. O que vemos como coerente é uma possível atuação apostólica pontual de líderes na igreja atual, no sentido da própria palavra apóstolo (de serem enviados) com um propósito específico a serviço do Corpo de Cristo (ou mesmo profeta como alguém que anuncia verdades de acordo com a Escritura).
A vocação central da Igreja é tornar-se à imagem e semelhança de Jesus Cristo
Primeiramente, isso não tem a ver com aquilo que fazemos, mas com quem estamos nos tornando. Entendemos que obra é aquilo que Deus faz em nós, e que ministério é aquilo que Deus faz por meio de nós. De modo que nenhum exercício ministerial pode ser feito sem que antes, Deus faça em nós. Portanto, enxergamos o ministério dos santos como uma extensão da obra do Espírito em Seu povo.
Entendemos que, por conta de a Igreja ser uma família, sua identidade é puramente relacional
Tudo é feito a partir da relação, com a finalidade de fundamentar, testemunhar e ampliar a relação. Para sermos uma igreja funcional, precisamos antes viver como uma família relacional. Funções, trabalho e serviço são importantes, relações são imprescindíveis.
Acerca de Casamento e Divórcio
Entendemos a prática do casamento (heterossexual, homem e mulher) como bíblica. O divórcio não é incentivado visto que as Escrituras Sagradas o reprovam. Os casos de divórcio e novo casamento serão ouvidos pelo presbitério e liderança da Família Betânia para fins de aconselhamento e instrução no Senhor.
Das contribuições e dízimos na igreja local
Temos como princípios que regem as contribuições em nossa família de fé: responsabilidade com regularidade e generosidade com liberalidade, sempre excedendo em justiça, conforme nosso Mestre nos ensinou.
Compreendemos que a Igreja não está submetida à lei do dízimo proposta na Aliança Mosaica, contudo, embora o dízimo não tenha um “peso de ordenança”, utilizamos a referência do Antigo testamento como um “ponto de partida” para uma vida de desprendimento e generosidade. Convidamos os irmãos a essa prática a fim de que a família de Deus seja suprida, ensinada sobre o senhorio de Cristo e possa “fazer parte” da obra do Evangelho em sua cidade, bairro e entre seus irmãos.
Texto da Intro à Família Betânia.