Entendemos que as escrituras orientam um modelo de liderança para as igrejas locais visando administrar a autoridade oriunda do próprio Deus, comunicar os desígnios divinos para o rebanho de Jesus, protegê-lo de ameaças externas e confusões internas. Tal liderança atua no espírito de Cristo e de acordo com o modelo deixado por Jesus, o qual se colocou como servo entre seus discípulos, deu exemplo de amor e entrega sacrificial e viveu uma vida que estava apta a ser imitada. Portanto, uma vez que a liderança eclesiástica nada tenha a ver com superioridade e domínio, os líderes que atuam na congregação são os primeiros na igreja local a se empenharem por materializar a vida e missão de Jesus de forma pública e clara perante o restante da congregação (1 Pe 5:1-3). Uma liderança saudável e bíblica faz com que:
- A Igreja tenha um acesso facilitado à sã doutrina;
- A Igreja tenha exemplos de piedade para imitar (embora isso não signifique que os líderes sejam perfeitos);
- A Igreja esteja mais protegida de heresias e filosofias anticristãs;
- A Igreja seja estimulada constantemente no desenvolvimento da salvação e cumprimento da sua vocação.
Liderança plural e interdependente
O conceito de liderança sobre o qual nos movemos é conhecido como modelo de “liderança plural”. Definido de forma simples, Deus dá o dom de liderança à Igreja e chama uma pluralidade de presbíteros com habilidades e funções complementares para serví-Lo coletivamente para equipar o povo de Deus para cumprir Seus propósitos no mundo (Ef 4:11-12). Uma das expressões para descrever a Igreja no Novo Testamento é o “corpo” composto de membros individuais servindo como partes diferentes (1 Co 12:8-27) com Jesus Cristo como a única “cabeça” designada de Seu “corpo”.
Além disso, vemos o modelo de Liderança plural e interdependente estabelecido na própria natureza de nosso Deus Triúno; (1Co 12:4-7) três pessoas distintas (Pai, Filho e Espírito Santo) com três funções distintas, agindo em completa interdependência entre si. A liderança interdependente não é apenas biblicamente fundamentada no projeto de Deus para Seu corpo e modelada por Sua própria natureza, mas também enfatiza o “coração” que Deus deseja para sua liderança (Mt 20:20-28).
O serviço plural dos líderes na Igreja ocorre tendo em vista que cada um possui uma variedade de funções e dons complementares aos demais, a fim de liderarem juntos sob a autoridade e governo de Jesus Cristo. Nenhum homem tem mais autoridade do que o outro, mas, em vez disso, todos submetem-se uns aos outros e cada um impulsiona e encoraja os demais para liderar onde apresentam maior favor e graça da parte de Deus. Isso proporciona um alto nível de responsabilidade e dá confiança à igreja local para saber que os presbíteros devem ser convencidos coletivamente a respeito da vontade de Deus para a igreja antes de agir.
Presbíteros e Diáconos
Acreditamos que o Novo Testamento reconhece apenas dois ofícios concernentes à organização da igreja local: presbítero (ou bispo), que cremos ser terminologias intercambiáveis no texto bíblico para se referir à mesma incumbência, e diácono, com funções distintas. Na Família Betânia, entendemos a diaconia e presbitério, devidamente ordenados, como os pastores que atuam no cuidado com o rebanho.
Acerca dos presbíteros
No Novo Testamento, sempre que os escritores se referem aos líderes na igreja, os termos usados são presbíteros ou bispos (sempre no plural), enquanto que Bispo (no singular) é usado especificamente para Jesus Cristo. Isso reflete o fato de que as igrejas neotestamentárias eram compostas por um colegiado de líderes.
Portanto, entendemos que o governo da Igreja local é composto por um grupo de homens que foram ordenados da parte de Deus por meio de um presbitério local ou extra local (em condição de sujeição) e reconhecidos pela Igreja como aqueles que atendem aos requisitos de piedade, integridade, aptidão para o ensino da sã doutrina, em conformidade com os textos de 1 Timóteo 3 e Tito 2, bem como o interesse em dar de sua própria vida pelo rebanho de Cristo.
Cabe aos presbíteros:
a) O governo diretivo da Igreja
Uma das prioridades do presbitério é a dedicação à oração e ensino das Escrituras (At 6.4). Isso significa que esse time de governo tem como responsabilidade orar e discernir, mediante a iluminação do Espírito Santo, as orientações que Deus tem para Seu povo naquele determinado lugar e tempo; e se empenhar no estudo das Escrituras a fim de apascentar o rebanho de Deus por meio de Sua Palavra. É por isso que entendemos o presbitério como um governo diretivo, pois cabe aos presbíteros direcionar e orientar a Igreja mediante o discernimento daquilo que o Espírito Santo está fazendo em conformidade com as Sagradas Escrituras.
Cabe aos presbíteros discernir as melhores ferramentas, as ênfases doutrinárias, a programação mais pontual (que promova engajamento e leveza por parte da comunidade) e quais frentes de trabalho merecem maior atenção num determinado tempo e estação em que a igreja local.
b) Responder pelo rebanho e para o rebanho
Eles respondem pelo rebanho na medida em que são os primeiros a falar em nome da igreja local, seja perante a sociedade ou demais igrejas. Acima de tudo, respondem pelo rebanho perante o Supremo Pastor, a saber, Jesus Cristo, na medida em que assumem a responsabilidade de apascentar, nutrir e orientar o rebanho a eles confiado.
Eles respondem para o rebanho na medida em que prestam contas para a Igreja acerca da administração da autoridade, recursos da igreja local e, acima de tudo, pela forma como administram a sã doutrina e pelo procedimento piedoso que cabe a eles assumirem, a fim de que sejam exemplo para o rebanho de Jesus.
c) Serem líderes na Igreja e não líderes da Igreja
O líder da Igreja é Jesus Cristo, ele é o proprietário, dono, Senhor e Pastor Supremo da Igreja. Os presbíteros são líderes entre o rebanho, e não sobre o rebanho, de sorte que a Igreja é a esfera de atuação onde eles administram a autoridade e ferramentas a eles confiadas. O papel dos presbíteros consiste em apontar para Cristo, fundamentar o Evangelho no coração dos irmãos, cultivar e guardar o governo do Espírito Santo. Ou seja, uma vez que Cristo, através das Escrituras e do Espírito Santo, constituem a liderança Suprema na Igreja, o presbitério funciona como uma espécie de “sub liderança” que aponta constante e veementemente para a verdadeira liderança e cabeça da Igreja.
Resumidamente, os presbíteros são aqueles que conhecem, alimentam, lideram e protegem aqueles que estão sob seus cuidados. Por meio desse cuidado, o rebanho é apontado para o Pastor Supremo, Jesus Cristo (1 Tm 3, At 20, Tt 1).
Acerca dos diáconos
A diaconia corresponde à intersecção entre o presbitério e os membros, garantindo que a igreja seja suprida de soluções práticas para as demandas que não podem ser solucionadas apenas pelo ensino e pregação públicos do Evangelho.
Em Atos 6, percebemos que, embora os líderes entre a Igreja (naquele contexto, os apóstolos) se importassem com a questão que havia surgido entre o povo, eles mesmos não poderiam se envolver diretamente na solução prática para o assunto uma vez que a sua prioridade central era o ministério da oração, ensino e pregação do Evangelho. É nesse contexto que os diáconos surgiram. Eles foram ordenados para que as demandas ordinárias entre o povo fossem sanadas, mas sem que isso tirasse a liderança do seu encargo primordial.
Cabe aos diáconos:
a) O governo operacional da Igreja:
Em virtude do seu serviço às mesas, a diaconia está mais perto do povo (no que se refere às demandas cotidianas) e, por conta de sua ligação com a liderança da igreja local, a diaconia está mais perto do presbitério (no que se refere a entender o que a liderança está discernindo mediante o Espírito e a Palavra para aquele tempo). Essa proximidade com o povo e os líderes na igreja faz com que a diaconia possa apresentar ao presbitério as diversas demandas da igreja local, a fim de que esses busquem em conselho as orientações que serão operacionalizadas pelos diáconos.
O papel da diaconia também consiste em auxiliar o presbitério no encargo de colocar em prática, em cada segmento da igreja local, as diretivas relacionadas ao modo que a igreja deve se mover em cada tempo. Não se trata apenas de solucionar problemas e suprir necessidades, mas de encontrar maneiras de dar forma às orientações direcionadas pela liderança.
b) Zelar pelo espírito de serviço no Corpo de Cristo:
O papel da diaconia é apontar para o ministério (ou serviço) cristão, o qual é feito com zelo, humildade e excelência. Nenhum serviço é um fim em si mesmo, mas, todo serviço, quando exercido no Espírito de Cristo, aponta para a natureza de Cristo. Por isso, a diaconia é um corpo de serviço dentro da igreja local, que inspira os santos a repartirem da graça recebida de Cristo uns com os outros.
Texto da Intro à Família Betânia.